segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Os meus 'Remoinhos'...


Os meus 'Remoinhos' são como a natureza.
Têm ciclos de quatro estações por ano.
No Inverno, entopem-se como as canalizações.
Com o desabruchar da Primavera e do Verão, dão rebentos, com pequenas e brancas flores, tal como as dos canaviais.
Este Blog não morreu.
Ressurgirá num dia longe do frio e das chuvas da invernia.

Maria Oliveira

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  • sábado, agosto 11, 2007

    MURIEL

    Às vezes se te lembras procurava-te
    retinha-te esgotava-te e se te não perdia
    era só por haver-te já perdido ao encontrar-te
    Nada no fundo tinha que dizer-te
    e para ver-te verdadeiramente
    e na tua visão me comprazer
    indispensável era evitar ter-te
    Era tudo tão simples quando te esperava
    tão disponível como então eu estava
    Mas hoje há os papéis há as voltas a dar
    há gente à minha volta há a gravata
    Misturei muitas coisas com a tua imagem
    Tu és a mesma mas nem imaginas
    como mudou aquele que te esperava
    Tu sabes como era se soubesses como é
    Numa vida tão curta mudei tanto
    que é com certo espanto que no espelho de manhã
    distraído diviso a cara que me resta
    depois de tudo quanto o tempo me levou
    Eu tinha uma cidade tinha o nome de madrid
    havia as ruas as pessoas o anonimato
    os bares os cinemas os museus
    um dia vi-te e desde então madrid
    se porventura tem ainda para mim sentido
    é ser a solidão que te rodeia a ti
    Mas o preço que pago por te ter
    é ter-te apenas quando poder ver-te
    e ao ver-te saber que vou deixar de ver-te
    Sou muito pobre tenho só por mim
    no meio destas ruas e do pão e dos jornais
    este sol de janeiro e alguns amigos mais
    Mesmo agora te vejo e mesmo ao ver-te não te vejo
    pois sei que dentro em pouco deixarei de ver-te
    Eu aprendi a ver na minha infância
    vim a saber mais tarde a importância desse verbo para os gregos
    e penso que se bach hoje nascesse
    em vez de ter composto aquele prelúdio e fuga em ré maior
    que esta mesma tarde num concerto ouvi
    teria concebido aqueles sweet hunters
    que esta noite vi no cinema rosales
    Vejo-te agora vi-te ontem e anteontem
    e penso que se nunca a bem dizer te vejo
    se fosse além de ver-te sem remédio te perdia
    Mas eu dizia que te via aqui e acolá
    e quando te não via dependia
    do momento marcado para ver-te
    Eu chegava primeiro e tinha de esperar-te
    e antes de chegares já lá estavas
    naquele preciso sítio combinado
    onde sempre chegavas sempre tarde
    ainda que antes mesmo de chegares lá estivesses
    se ausente mais presente pela expectativa
    por isso mais te via do que ao ter-te à minha frente
    Mas sabia e sei que um dia não virás
    que até duvidarei se tu estiveste onde estiveste
    ou até se exististe ou se eu mesmo existi
    pois na dúvida tenho a única certeza
    Terá mesmo existido o sítio onde estivemos?
    Aquela hora certa aquele lugar?
    À força de o pensar penso que não
    Na melhor das hipóteses estou longe
    qualquer de nós terá talvez morrido
    No fundo quem nos visse àquela hora
    à saída do metro de serrano
    sensivelmente em frente daquele bar
    poderia pensar que éramos reais
    pontos materiais de referência
    como as árvores ou os candeeiros
    Talvez pensasse que naqueles encontros
    em que talvez no fundo procurássemos
    o encontro profundo com nós mesmos
    haveria entre nós um verdadeiro encontro
    como o que apenas temos nos encontros
    que vemos entre os outros onde só afinal somos felizes
    Isso era por exemplo o que me acontecia
    quando há anos nas manhãs de roma
    entre os pinheiros ainda indecisos
    do meu perdido parque de villa borghese
    eu via essa mulher e esse homem
    que naqueles encontros pontuais
    decerto não seriam tão felizes como neles eu
    pois a felicidade para nós possível
    é sempre a que sonhamos que há nos outros
    Até que certo dia não sei bem
    ou não passei por lá ou eles não foram
    nunca mais foram nunca mais passei por lá
    Passamos como tudo sem remédio passa
    e um dia decerto mesmo duvidamos
    dia não tão distante como nós pensamos
    se estivemos ali se madrid existiu
    Se portanto chegares tu primeiro porventura
    alguma vez daqui a alguns anos
    junto de califórnia vinte e um
    que não te admires se olhares e me não vires
    Estarei longe talvez tenha envelhecido
    terei até talvez mesmo morrido
    Não te deixes ficar sequer à minha espera
    não telefones não marques o número
    ele terá mudado a casa será outra
    Nada penses ou faças vai-te embora
    tu serás nessa altura jovem como agora
    tu serás sempre a mesma fresca jovem pura
    que alaga de luz todos os olhos
    que exibe o sossego dos antigos templos
    e que resiste ao tempo como a pedra
    que vê passar os dias um por um
    que contempla a sucessão da escuridão e luz
    e assiste ao assalto pelo sol
    daquele poder que pertencia à lua
    que transfigura em luxo o próprio lixo
    que tão de leve vive que nem dão por ela
    as parcas implacáveis para os outros
    que embora tudo mude nunca muda
    ou se mudar que se não lembre de morrer
    ou que enfim morra mas que não me desiluda
    Dizia que ao chegar se olhares e me não vires
    nada penses ou faças vai-te embora
    eu não te faço falta e não tem sentido
    esperares por quem talvez tenha morrido
    ou nem sequer talvez tenha existido.

    Ruy Belo

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  • quarta-feira, julho 25, 2007

    Poesia Africana



    CHAGAS DE SALITRE

    Olha-me este país a esboroar-se
    em chagas de salitre
    e os muros, negros, dos fortes
    roidos pelo vegetar
    da urina e do suor
    a carne virgem mandada
    cavar glórias e grandeza
    do outro lado do mar.

    Olha-me a história de um país perdido:
    marés vazantes de gente amordaçada,
    a ingénua tolerância aproveitada
    em carne. Pergunta ao mar,
    que é manso e afaga ainda
    a mesma velha costa erosionada.

    Olha-me as brutas construções quadradas:
    embarcadouros, depósitos de gente.
    Olha-me os rios renovados de cadáveres,
    os rios turvos de espesso deslizar
    dos braços e das mãos do meu país.

    Olha-me as igrejas restauradas
    sobre ruínas de propalada fé:
    paredes brancas de um urgente brio
    escondendo ferros de educar gentio.

    Olha-me a noite herdada, nestes olhos
    de um povo condenado a amassar-te o pão.
    Olha-me amor, atenta podes ver
    uma história de pedra a construir-se
    sobre uma história morta a esboroar-se
    em chagas de salitre.

    RUY DUARTE de CARVALHO
    (Santarém, Portugal, 1941-)
    Radicado em Angola

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  • domingo, julho 01, 2007

    Autores Africanos - Do Rovuma ao Maputo


    CARTA DUM CONTRATADO

    Eu queria escrever-te uma carta
    Amor,
    Uma carta que dissesse
    Deste anseio
    De te ver
    Deste receio
    De te perder
    Deste mais que bem querer que sinto
    Deste mal indefinido que me persegue
    Desta saudade a que vivo todo entregue...

    Eu queria escrever-te uma carta
    Amor,
    Uma carta de confidências íntimas,
    Uma carta de lembranças de ti,
    De ti
    Dos teus lábios vermelhos como tacula
    Dos teus cabelos negros como diloa
    Dos teus olhos doces como macongue
    Dos teus seios duros como maboque
    Do teu andar de onça
    E dos teus carinhos
    Que maiores não encontrei por aí...

    Eu queria escrever-te uma carta
    Amor,
    Que recordasse nossos dias na capopa
    Nossas noites perdidas no capim
    Que recordasse a sombra que nos caia dos jambos
    O luar que se coava das palmeiras sem fim
    Que recordasse a loucura
    Da nossa paixão
    E a amargura da nossa separação...

    Eu queria escrever-te uma carta
    Amor,
    Que a não lesses sem suspirar
    Que a escondesses de papai Bombo
    Que a sonegasses a mamãe Kiesa
    Que a relesses sem a frieza
    Do esquecimento
    Uma carta que em todo o Kilombo
    Outra a ela não tivesse merecimento...

    Eu queria escrever-te uma carta
    Amor,
    Uma carta que ta levasse o vento que passa
    Uma carta que os cajus e cafeeiros
    Que as hienas e palancas que os jacarés e bagres
    Pudessem entender
    Para que se o vento a perdesse no caminho
    Os bichos e plantas
    Compadecidos de nosso pungente sofrer
    De canto em canto
    De lamento em lamento
    De farfalhar em farfalhar
    Te levassem puras e quentes
    As palavras ardentes
    As palavras magoadas da minha carta
    Que eu queria escrever-te amor

    Eu queria escrever-te uma carta...

    Mas, ah, meu amor, eu não sei compreender
    Por que é, por que é, por que é, meu bem
    Que tu não sabes ler
    E eu - Oh! Desespero! - não sei escrever também!

    António Jacinto

    Angola
    (Foto: Maputo)

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  • domingo, junho 24, 2007

    Escrevo-te com o fogo e a água











    Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te
    no sossego feliz das folhas e das sombras.
    Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.
    Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.
    Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.

    O que procuro é um coração pequeno, um animal
    perfeito e suave. Um fruto repousado,
    uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,
    uma pergunta que não ouvi no inanimado,
    um arabesco talvez de mágica leveza.

    Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?
    Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.
    As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.
    O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,
    o grande sopro imóvel da primavera efémera.

    António Ramos Rosa


    [Volante Verde - 1986
    in Antologia Poética
    Selecção de Ana Paula Coutinho Mendes ]

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  • domingo, junho 17, 2007

    Poesia Africana

    Infância perdida

    Nesse tempo, Edelfride,
    Com quatro macutas
    A gente comprava
    Dois pacotes de ginguba
    Na loja do Guimarães.


    Nesse tempo, Edelfride,
    com meio angolar
    a gente comprava
    cinco mangas madurinhas
    no Mercado de Benguela.

    Nesse tempo, Edelfride,
    montados em bicicletas
    a gente fugia da cidade
    e ia prás pescarias
    ver as traineiras chegar
    ou então
    à horta do Lima Gordo
    no Cavaco
    comer amoras fresquinhas.

    Nesse tempo, Miau,
    (alcunha que mantiveste no futebol)
    nós fazíamos gazeta
    da escola coribeca
    e íamos os quatro
    jogar sueca
    debaixo da mandioqueira.

    Era no tempo
    em que o Saraiva Cambuta batia na mulher
    e a gente gostava de ver a negra levar porrada.

    Era no tempo
    dos dongos da ponte
    dos barcos de bimba
    dos carrinhos de papelão

    Como tudo era bonito nesse tempo, Miau!

    Era no tempo do visgo
    que a gente punha na figueira brava
    para apanhar bicos-de-lacre e seripipis
    os passarinhos que bicavam as papaias do Ferreira Pires
    que tinha aquele quintalão grande e gostava dos meninos.

    Era no tempo dos doces de ginguba com açúcar.

    Mais tarde
    vieram os passeios noturnos
    à Massangarala
    e ao Bairro Benfica.
    E o Bairro Benfica ao luar
    O poeta Aires a cantar
    (meu amor da rua onze e seu colar de missangas...)
    Tudo era bonito nesse tempo
    até o Salão Azul dos Cubanos
    e o Lanterna Vermelha - o dancing do Quioche.

    Foi então que a vida me levou para longe de ti:
    parti para estudar na Europa
    mas nunca mais lhe esqueci, Edelfride,
    meu companheiro mulato dos bancos de escola
    porque tu me ensinaste a fazer bola de meia
    cheia de chipipa da mafumeira.
    Tu me ensinaste a compreender e a amar
    os negros velhos do bairro Benfica
    e as negras prostitutas da Massangarala
    (lembras-te da Esperança? Oh, como era bonita
    [essa mulata...)
    Tu me ensinaste onde havia a melhor quissângua
    de Benguela:
    era no Bairro por detrás do Caminho de Ferro
    quando a gente vai na Escola da Liga.
    Tu me ensinaste tudo quanto relembro agora
    Infância Perdida
    sonhos dos tempos de menino.

    Tudo isso te devo
    companheiro dos bancos de escola
    isso
    e o aprender a subir
    aos tamarineiros
    a caçar bituítes com fisga
    aprender a cantar num kombaritòkué
    o varre das cinzas
    do velho Camalundo.
    Tudo isso perpassa
    me enche de sofrimento.

    Diz a tua Mãe
    que o menino branco
    um dia há-de voltar
    cheio de pobreza e de saudade
    cheio de sofrimento
    quase destruído pela Europa.

    Ele há-de voltar
    para se sentar à tua mesa
    e voltar a comer contigo e com teus irmãos
    e meus irmãos
    aquela moambada de domingo
    com quiabos e gengibre
    aquela moambada que nunca mais esqueci
    nos longos domingos tristes e invernais da Europa
    ou então
    aquele calulu
    de dona Ema.

    Diz a tua Mãe, Edelfride,
    que ela ainda me há-de beijar como fazia
    quando eu era menino
    branco
    bem tratado
    quando fugia da casa de meus Pais
    para ir repartir a minha riqueza
    com a vossa pobreza.
    Diz tudo isso a toda a gente
    que ainda se lembra de mim.
    Diz-lhes. Diz-lhes
    grita-lhes
    aos ouvidos
    ao vento que passa
    e sopra nas casuarinas da Praia Morena.
    Diz aos mulatos e brancos e negros
    que foram nossos companheiros de escola
    que te escrevo este poema
    chorando de saudade
    as veias latejando
    o coração batendo
    de Esperança, de Esperança
    porque ela
    a Esperança
    (como dizia aquele nosso poeta
    que anda perdido nos longes da Europa)
    está na Esperança, Amigo.

    Edelfride, você não chore
    saudades do Castimbala
    nem lhe escreva
    cartas como essa
    que são de partir
    meu pobre coração.

    Nesse tempo, Edelfride,
    Infância Perdida
    era no tempo dos tamarineiros em flor...

    Ernesto Lara Filho
    (Angola)

    [Antologia de poesia da Casa dos
    Estudantes do Império - Angola e
    S. Tomé e Príncipe]

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  • sábado, maio 26, 2007

    SOBRE OS MORTOS







    IN MEMORIAM

    a meu pai

    Cada dia te víamos andando
    mais para dentro de ti mesmo. O tempo
    ia ficando parado
    à medida que o sangue, mais pequeno,
    circulava num espaço
    que já era seu próprio esquecimento.
    A certa altura, a placidez do campo
    lavrava teu rosto. Que terreno
    era então ver-te olhando,
    como se olhar e o fio do centeio
    fossem a luz do ano
    com nostalgia de parecer eterno.
    Foi essa a idade em que haver sido amado
    pelo pão, pelo vinho e pelo vento
    te trouxe a crestação com que o trabalho
    deu tez ao sonho, e honradez e peso
    a ficares assim, em paz sentado,
    marceneirando teu próprio pensamento.
    E, aos poucos, por ele madrugando,
    seguiste ainda mais por ele adentro,
    de forma que, hoje, nem te vemos. O halo
    onde foste minguando é só aceno
    de quem se foi pensando
    até ao outro lado de si mesmo.

    Do outro lado de si mesmos, cantam.
    Desde outra margem sua voz arriba,
    imperceptivelmente alcandorada
    nessa tensão em que o cristal é cima.
    Como essa margem se está excedendo. Que alta
    se cumpre a melodia
    por onde a inteligência fundou haver montanhas
    de que nos chega somente a nostalgia.
    Que as vozes que, do outro lado de si mesmas, cantam
    deixam os ecos propagar-se à santa
    alcandoração da disciplina.

    Fernando Echevarría

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  • segunda-feira, maio 21, 2007

    Júpiter 1901


    Júpiter 1901

    Nasci no ano em que se descobriu a Grande Perturbação de Júpiter.
    Minha Mãe não deu por nada, meu Pai não era astrónomo,
    Mas houve lá em casa uma grande perturbação na água do banho,
    Que meu Pai, músico, acompanhava regulando encantado o seu
    metrónomo.
    E Júpiter, assim mimado, com pai por ele, saiu poeta,
    Com seus doze satélites, quatro deles principais:
    Serafina, Lourdes, Lídia, Isaura,
    A Primeira Grande Perturbação de Júpiter
    No ano em que nasci.
    Elas em roda da banheira,
    Meu Pai tocando flauta
    (Serpentes? no ninho em mim)
    E um céu de vapor de água,
    Difracção de satélites...
    Júpiter! Júpiter!
    Tu és o Toiro de fumo
    Que nunca terás Europa.

    Vitorino Nemésio

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  • sábado, maio 05, 2007

    "há-de flutuar uma cidade..."










    há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
    pensava eu... como seriam felizes as mulheres
    à beira mar debruçadas para a luz caiada
    remendando o pano das velas espiando o mar
    e a longitude do amor embarcado

    por vezes
    uma gaivota pousava nas águas
    outras era o sol que cegava
    e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
    os dias lentíssimos... sem ninguém

    e nunca me disseram o nome daquele oceano
    esperei sentado à porta... dantes escrevia cartas
    punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
    assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
    se espantasse com a minha solidão

    (anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no
    coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

    um dia houve
    que nunca mais avistei cidades crepusculares
    e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
    inclino-me de novo para o pano deste século
    recomeço a bordar ou a dormir
    tanto faz
    sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade

    Al Berto

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  • quarta-feira, abril 11, 2007

    [Quando eu vir vaguear por dentro da casa]



    Quando eu vir vaguear por dentro da casa
    o abeto que cresceu no bosque, hei-de
    ajoelhar no soalho. Todas as coisas
    comunicam entre si a totalidade das suas formas.
    A mão que vai surgir do abeto apontará para mim.

    Tenho de despir as tiras de brocado que envolvem as veias,
    as cadeias de ouro dos rins. Deixar
    que as unhas longas da árvore passem
    entre mim e o imo dos quartos interiores da casa.

    Se essa figura imponente, a árvore, me reconhecer,
    vou interromper o que escrevo, esperar ansiosa
    atracção que a insónia desse vulto
    há - de exercer sobre mim. Rodo
    até à tontura da morte.
    Torturo-me
    até à alegria. Encontro na casa
    o tema da despossuição e a agonia.

    A pobreza antiga com que o corpo cai
    para uma vala. Preso apenas às pérolas
    que tinem nas orelhas. Dante deixou-nos resvalar,
    com os cânones clássicos, como se o poema
    fosse uma escada. É-o, quando as figuras austeras
    da Natureza perseguem os mortais. Querem confirmar
    a sua configuração. Querem ser
    reais, quando se aproximam.
    Vai para diante da minha face, ao fundo.
    Vem dos recantos, onde já não é a silhueta volúvel
    enovelada pelo vento, à janela. Com lentidão
    arrasta a forma táctil até à passagem do poema.

    Sou eu que me vergo ao domínio.
    Que me poise a marca incandescente na testa.
    Tocará na meninge como num cofre.
    Aceito coroas para depor sobre mim.
    Deixo os pés do abeto empurrar
    com a biqueira violetas. A fragrância
    delas leva-me a imaginar poemas
    em branco. Depois de percorrer um longo encadeamento
    de sílabas sou outra. Vejo assomar a natureza nua.


    Fiama Hasse Pais Brandão

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  • "Poema dum Funcionário Cansado"


    A noite trocou-me os sonhos e as mãos
    dispersou-me os amigos
    tenho o coração confundido e a rua é estreita
    estreita em cada passo
    as casas engolem-nos
    sumimo-nos
    estou num quarto só num quarto só
    com os sonhos trocados
    com toda a vida às avessas a arder num quarto só
    Sou um funcionário apagado
    um funcionário triste
    a minha alma não acompanha a minha mão
    Débito e Crédito Débito e Crédito
    a minha alma não dança com os números
    tento escondê-la envergonhado
    o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
    e debitou-me na minha conta de empregado
    Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
    Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
    Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
    Soletro velhas palavras generosas
    Flor rapariga amigo menino
    irmão beijo namorada
    mãe estrela música
    São as palavras cruzadas do meu sonho
    palavras soterradas na prisão da minha vida
    isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
    num quarto só

    António Ramos Rosa

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