sábado, maio 26, 2007

SOBRE OS MORTOS







IN MEMORIAM

a meu pai

Cada dia te víamos andando
mais para dentro de ti mesmo. O tempo
ia ficando parado
à medida que o sangue, mais pequeno,
circulava num espaço
que já era seu próprio esquecimento.
A certa altura, a placidez do campo
lavrava teu rosto. Que terreno
era então ver-te olhando,
como se olhar e o fio do centeio
fossem a luz do ano
com nostalgia de parecer eterno.
Foi essa a idade em que haver sido amado
pelo pão, pelo vinho e pelo vento
te trouxe a crestação com que o trabalho
deu tez ao sonho, e honradez e peso
a ficares assim, em paz sentado,
marceneirando teu próprio pensamento.
E, aos poucos, por ele madrugando,
seguiste ainda mais por ele adentro,
de forma que, hoje, nem te vemos. O halo
onde foste minguando é só aceno
de quem se foi pensando
até ao outro lado de si mesmo.

Do outro lado de si mesmos, cantam.
Desde outra margem sua voz arriba,
imperceptivelmente alcandorada
nessa tensão em que o cristal é cima.
Como essa margem se está excedendo. Que alta
se cumpre a melodia
por onde a inteligência fundou haver montanhas
de que nos chega somente a nostalgia.
Que as vozes que, do outro lado de si mesmas, cantam
deixam os ecos propagar-se à santa
alcandoração da disciplina.

Fernando Echevarría

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  • segunda-feira, maio 21, 2007

    Júpiter 1901


    Júpiter 1901

    Nasci no ano em que se descobriu a Grande Perturbação de Júpiter.
    Minha Mãe não deu por nada, meu Pai não era astrónomo,
    Mas houve lá em casa uma grande perturbação na água do banho,
    Que meu Pai, músico, acompanhava regulando encantado o seu
    metrónomo.
    E Júpiter, assim mimado, com pai por ele, saiu poeta,
    Com seus doze satélites, quatro deles principais:
    Serafina, Lourdes, Lídia, Isaura,
    A Primeira Grande Perturbação de Júpiter
    No ano em que nasci.
    Elas em roda da banheira,
    Meu Pai tocando flauta
    (Serpentes? no ninho em mim)
    E um céu de vapor de água,
    Difracção de satélites...
    Júpiter! Júpiter!
    Tu és o Toiro de fumo
    Que nunca terás Europa.

    Vitorino Nemésio

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  • sábado, maio 05, 2007

    "há-de flutuar uma cidade..."










    há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
    pensava eu... como seriam felizes as mulheres
    à beira mar debruçadas para a luz caiada
    remendando o pano das velas espiando o mar
    e a longitude do amor embarcado

    por vezes
    uma gaivota pousava nas águas
    outras era o sol que cegava
    e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
    os dias lentíssimos... sem ninguém

    e nunca me disseram o nome daquele oceano
    esperei sentado à porta... dantes escrevia cartas
    punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
    assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
    se espantasse com a minha solidão

    (anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no
    coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

    um dia houve
    que nunca mais avistei cidades crepusculares
    e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
    inclino-me de novo para o pano deste século
    recomeço a bordar ou a dormir
    tanto faz
    sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade

    Al Berto

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